RARO Efeito – Parte I

Ao longo de quase três décadas tenho o prazer de vivenciar o patrimônio histórico do nosso país. Comecei em uma época em que a restauração era domínio exclusivo dos escritórios de arquitetura, e não me refiro apenas aos projetos de restauro, mas as obras também.

Até o final da década de 1980, eram estes os agentes que lideravam o mercado da restauração arquitetônica. Projetos bem estruturados saíam das pranchetas e eram conduzidos pelos mesmos profissionais que, com conhecimento de causa, gerenciavam as obras que via de regra, trabalhavam com a mão de obra treinada por eles mesmos. Tive o prazer de fazer parte destas equipes que mesclavam velhos artífices, jovens aprendizes, velhos arquitetos, estagiários e jovens recém formados, classificação esta na qual eu me enquadrava.

Restauro do Teatro Municipal de São Paulo (1986 – 1991). Fonte: metodo.com.br

O eixo Rio – São Paulo – Minas Gerais e o nordeste do Brasil já apresentava uma vasta galeria de trabalhos deste tipo, obras que possuíam, por suas peculiaridade, composições de preço superiores às obras civis ditas convencionais, o que acabou por chamar a atenção de grandes construtoras, inclusive daquelas que até então trabalhavam no ramo de engenharia pesada.

Na segunda metade da década de 1990 nomes nada conhecidos no campo do restauro arquitetônico ganhavam a cena, levando grande parte dos escritório de arquitetura e restauro outrora protagonistas a serem meros coadjuvantes. Este perfil sofreu algumas modificações, pois agora empresas de engenharia já detentoras dos atestados técnicos, contratam arquitetos para coordenar suas obras e assim atender às exigências da lei. Por ser atribuição exclusiva do arquiteto urbanista o projeto de restauro ainda se mantém em suas mãos, mas a tradição da restauração realizada pelos escritórios de arquitetura nem tanto.

Empresas sem a cultura do restauro, sem a paixão pelas técnicas retrospectivas e pelo conceito da edificação histórica expressa nos seus materiais e nas mais diversas tipologias arquitetônicas é que hoje dão o tom da restauração arquitetônica, buscando o maior lucro em cada composição de preço. Lembro de uma obra de restauro, na qual fui consultora, em que o engenheiro veio me dizer exultante que não havia pago o pintor pois a pintura da fachada estava manchada. Só um detalhe, a edificação era do final do século XIX, com alvenaria em pedra argamassada com massa de terra e pintada com tinta cal.

Agora vem junto comigo e reflita! Nestes últimos 30 anos, o que mudou de forma efetiva, em nossas cidades quando falamos de conservação da nossa memória histórico arquitetônica? qual o cenário urbano que você visualiza hoje na sua cidade, é diferente do que você viu nas últimas décadas?

“Só é útil o conhecimento que nos torna melhores.” Sócrates

Publicado por Verônica Di Benedetti

Alguém que gosta de interagir com outras pessoas, pois cada uma delas é uma fonte inesgotável de saber. Suas vivências , suas experiências e suas interações , me enriquecem demais. Verônica Di Benedetti on ResearchGate

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