Natureza e Patrimônio: Biodeterioração de arenitos na Redução Jesuítica de São Miguel Arcanjo

Artigo escrito por Inaê Carolina Sfalcin – Graduanda de Ciências Biológicas – URI Santo Ângelo

Você já deve ter se perguntado como objetos de madeira, muros de pedra ou até mesmo asfalto se deterioram naturalmente. Pois saiba que, ao tocar neste assunto, você está investigando o campo da Biodeterioração.

Como o próprio nome diz, a Biodeterioração é a degradação de elementos causada por agentes biológicos, mudando as características físicas iniciais do material ao alterar suas propriedades químicas constituintes. Os causadores deste processo são os microrganismos, principalmente fungos, ácaros, bactérias e até algas unicelulares.  

E embora muitos não saibam, isto ocorre a todo momento na natureza pois faz parte dos processos vitais destes diminutos seres vivos, além de ter papel importantíssimo na ciclagem de nutrientes e no equilíbrio dos ciclos biogeoquímicos.

Os fungos, por exemplo, secretam enzimas digestivas sobre o substrato a fim de modificá-lo quimicamente e torná-lo assimilável. Ou seja, estas enzimas transformam um composto em moléculas orgânicas simples, as quais o fungo é capaz de absorver. Assim, enquanto um fungo se nutre, um material é decomposto.

No entanto, quando se fala em degradação de bens culturais materiais, este cenário configura uma preocupação. Isto por que achados arqueológicos, arquitetônicos e esculturais tem um fundamento histórico, religioso e artístico traduzido em seus traços esculpidos e/ou materiais que o constituem. Se este material for deteriorado ele perde seu fundamento e sua originalidade, passando a não ter significado. A biodeterioração, então, torna-se vilã na conservação do patrimônio.  

No que diz respeito aos arenitos, os grandes vilões são os líquens. Os líquens são associações simbióticas entre algas (porção fotobionte) e fungos (porção micobionte), ou seja, dois microrganismos de espécies diferentes que vivem em uma relação mutuamente vantajosa. Esta simbiose resulta em uma formação conhecida como “talo”, definido em crostoso, folioso ou fruticoso conforme sua morfologia, dentre outros menos frequentes.

O líquen sobrevive sobre a superfície de troncos de árvores, solo e principalmente, rochas. Se adaptam bem á exposição solar, pois dependem da fotossíntese, sendo que, se esta for interrompida, ocorre a morte do organismo. O micobionte é, portanto, o responsável por produzir ácidos que desagregam as partículas rochosas, deteriorando a estrutura. É um processo lento, mas contínuo, que aos poucos vai fazendo a rocha tornar-se solo.

Ações de conservação são necessárias para cessar e/ou interromper esses processos naturais. Em dezembro de 2018, realizou-se no Sítio Arqueológico de São Miguel Arcanjo (São Miguel das Missões/RS) um Workshop visando as técnicas de manejo e prevenção da biodeterioração dos arenitos que compõem o sítio. Componentes arquitetônicos como a Cruz Missioneira, a pia batismal e o relógio do sol receberam o tratamento.

Esta atividade ocorreu por iniciativa do IPHAN, na pessoa da então superintendente Juliana Erpen e com apoio do IBRAM/Museu das Missões, pelo diretor Diego Luiz Vivian. Artífices, restauradores e interessados foram orientados pela arquiteta Verônica Di Benedetti em atividades de conservação nos arenitos de São Miguel e da Redução Jesuítica de São João Batista.

Estas ações baseiam-se, principalmente, na remoção mecânica dos talos de líquens e de musgos encrustados sobre as rochas e aplicação de substâncias químicas que atuam sobre estes organismos, perpetuam no arenito e assim, inviabilizam a recidiva dos mesmos. Para estas atividades, utilizam-se materiais comuns como escovas (de cerdas sintéticas macias), água e os produtos químicos necessários, além de algodão, papel alumínio e outros.

Se bem observarmos a paisagem que compõem as ruínas do sítio arqueológico, perceberemos que os líquens estão praticamente por todo lugar. As paredes, as colunas, as bases de pedra… Estão todos cobertos por estruturas liquênicas ou por musgos (estes últimos, nos locais com sombra e umidade).

Entretanto, apesar da degradação contínua da rocha, estes organismos ainda levam á um outro contratempo. Os líquens, principalmente, fazem da superfície do arenito um local mais apropriado para a dominação de outros seres vivos. Atraindo então, espécies epífitas e pequenos insetos e artrópodes. Assim, aos poucos a natureza vai dominando o espaço e escondendo progressivamente a estrutura rochosa.

Essa é a ordem natural, transformar rocha em solo, embora não seja essa a intenção cultural, a qual, por sua vez, busca preservar o arenito intacto e o mais conservado possível. Para isto, as ações de conservação mostram-se fundamentais. Elas preservam os arenitos que compõem o sítio histórico e contam a história das Missões, contribuindo para a perpetuação do patrimônio e assegurando que ele possa encantar aos olhos de visitantes e estudiosos por ainda muito tempo.

Muro aos fundos da Igreja de São Miguel. Nesta imagem vemos um grande líquen crostoso ao centro
(cor branca) e líquens foliosos, incluindo um fruticuloso, ao redor. Também vê-se musgos, á esquerda da foto (cor verde).

Foto: Inaê Sfalcin

Bloco de arenito coberto quase que totalmente por líquen crostoso, além da presença de musgos.
Foto: Inaê Sfalcin
Muro lateral do antigo cemitério da Redução de São Miguel Arcanjo, coberto por líquens.
Foto: Inaê Sfalcin

Epífitas sobre os arenitos.

Líquens coloridos sobre arenito.
Foto: Inaê Sfalcin
Rocha com sinais claros da ação do Intemperismo Biológico (biodeterioração) e físico.
Foto: Inaê Sfalcin
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